Nascido para reportar
O jornalista José Hamilton Ribeiro fala sobre como se tornou um dos maiores repórteres brasileiros
Por Manuel Marques
O Repórter do Século. Este é o título de um livro de José Hamilton Ribeiro. A obra reúne sete reportagens publicadas na revista Realidade e o famoso relato “Eu Estive na Guerra”, sobre sua cobertura dos conflitos armados no Vietnã, no fim dos anos 60, quando ele virou personagem de matérias ao pisar em um campo minado e perdeu uma de suas pernas. Mas os biógrafos de José Hamilton Ribeiro provavelmente farão uso desse título ao narrarem a sua vida. Não é exagero. Prova disso é que só de Prêmio Esso, o mais importante do nosso país, ele faturou sete. Mencionar os inúmeros outros prêmios recebidos por ele ocuparia toda a página. Basta dizer que na história da imprensa brasileira ainda não apareceu ninguém que o igualasse em reportagens premiadas. O relato sobre a Guerra do Vietnã não ganhou o Esso. Na época o regulamento do prêmio excluía trabalhos que não tratassem do Brasil. Premiado ou não, José Hamilton Ribeiro nunca parou de produzir reportagens históricas, sejas nos impressos por onde passou, ou nos mais de 30 anos de TV Globo. E foi no prédio da emissora que ele nos recebeu para uma longa entrevista. O resultado o leitor confere a seguir:
Folha Universitária – Zé, há dez anos entrevistei o cientista Oscar Hipólito. Na ocasião ele me mostrou uma reportagem assinada por você. Ela lhe valeu o premio Esso de jornalismo. Ele contou detalhes de como você o entrevistou, sem gravar nada, e em seguida acrescentou: “O José Hamilton é um jornalista diferenciado. Nunca ninguém como ele”. Quero que você nos conte como se tornou um jornalista diferenciado, já que é o mais premiado da história de nossa imprensa.
José Hamilton Ribeiro – É porque aquela reportagem que a gente fez com ele, sobre mecânica quântica, é um problema difícil de a gente visualizar. Se é difícil a gente entender o objeto da reportagem, como fazer uma reportagem daquilo? (...) No fim saiu um texto que espero tenha sido compreendido pela maioria das pessoas. Mas uma coisa que o professor notou aí, e que me deixa feliz, é que nunca houve, por parte do entrevistado, uma carta dizendo que eu errei numa informação. Quando se trata de um assunto complexo eu preciso da segurança de que não estou cometendo nenhum erro técnico. Até hoje nunca tive uma reportagem contestada. |
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F.U - Você é um homem de impresso e também de televisão. Em qual desses veículos você mais se identifica?
J.H.R - Dos meus 50 anos de reportagem, 25 foram atuando no jornalismo impresso, tanto em jornal como em revista. A outra metade eu tenho passado na TV, grande parte desse tempo trabalhando no programa Globo rural. Mas comecei na Rádio Bandeirantes, em São Paulo. (com ar pensativo) Olha, o impresso ainda traz assim uma certa nobreza porque a fonte do conhecimento do mundo foi a palavra impressa. Desde o livro do Gutenberg que a cultura se espalhou no mundo. Então, o pessoal da minha geração tinha um respeito sagrado pelo impresso porque era ali que estava a cultura, a erudição e o saber. Considerávamos a imprensa escrita mais nobre do que a imprensa falada ou imprensa de imagem. (...) Eu costumo dizer que a pessoa que é um repórter de imprensa escrita será um bom repórter de rádio e televisão. Ele maneja bem o conteúdo, que é o mais difícil.
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F.U - E quais foram suas principais influências no jornalismo impresso?
J.H.R - Eu gostava muito das reportagens do Gay Talease (premiado jornalista norte-americano, e nome mais importante do jornalismo literário daquele país), do (Gabriel) Garcia Marquez e no Brasil eu lia o David Nasser, que escrevia muito bem. Ele tinha uma grande capacidade pra escrever. Na Folha (de São Paulo) do meu tempo tinha grandes repórteres, como o Neil Ferreira. Hoje eu gosto do Lourival Santana, do Estado, e alguns repórteres da Folha.
F.U - Você goza do mesmo prestigio que esses jornalistas mencionados. Que reportagens de sua lavra lhe trazem mais recordações da época em que atuou no jornalismo impresso?
J.H.R - Uma série de reportagens na Realidade que ganharam o prêmio Esso. Mais umas duas que eu fiz pra revista Globo Rural, particularmente uma sobre os tatus do Brasil e outra sobre a onça pintada.
F.U - Você não pôs nessa lista a cobertura de uma guerra. E essa cobertura, de certo modo, foi decisiva na sua vida profissional. A Realidade tinha muitos dos principais jornalistas do país na década de sessenta. Como foi o processo que levou à sua escolha?
J.H.R - Em 1968, começou a ficar claro que era possível que os americanos fossem derrotados no Vietnã. Essa foi a noticia mais importante da imprensa por meses e meses seguidos. A Realidade, como você mencionou, era a revista mais importante do Brasil. E eles acharam que não era possível cobrir o conflito utilizando correspondente de outro país. Fizeram uma lista de três repórteres, e o primeiro da lista fui eu. Eu pedi um tempo pra pensar e 24 horas depois eu aceitei. Foi uma circunstância histórica. E foi a cobertura da guerra do Vietnã que me fez famoso por 15 minutos. |
F.U – Não há muitos relatos de correspondência de guerra em nosso jornalismo antes de 1968. Imagino que tenha sido bastante complicado tomar essa decisão, por mais que você desejasse cobrir o conflito.
J.H.R - (rindo) Era algo muito difícil porque a correspondência de guerra no Brasil não é algo historicamente tradicional. Porque pra ter correspondente de guerra você precisa ter guerra e jornalismo. E o Brasil, felizmente ou infelizmente, não tem nenhum dos dois direito, né? Guerra, a gente teve a do Paraguai e uma participação modesta na segunda guerra e o jornalismo nosso é de terceiro mundo.
Folha Universitária – A maioria dos jornalistas mundo afora sonham em cobrir uma guerra. Mas é inevitável a pergunta: o que leva alguém a deixar a segurança de sua pátria pra cobrir um luta em outros países, pondo em risco a própria vida?
J.M.R - (rindo) Um pouco é vaidade e espírito de aventura. Muito de ambição profissional e mais ainda de falta de juízo. E mais ainda de um componente psicológico típico da profissão de jornalista, que é ser um justiceiro, um missionário, um visionário, no sentido em que ele sente que precisa estar onde estão acontecendo as coisas. Primeiro, para ser uma testemunha da história. Segundo, para denunciar o que houver ali de maldade, de injustiça. Pode reparar que uma guerra que tem jornalista, na unidade de combate, ali não se verá atrocidade contra um prisioneiro de guerra. Uma guerra é ruim, mas uma guerra sem jornalista é pior ainda. Eu pensava isso como um fator de inibição de excessos, de crueldade. |
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F.U - Além do cuidado em preservar a vida e cobrir o conflito entre os exércitos, que outros cuidados eram importantes?
J.H.R - Eles davam uma lista com uma porção de itens que você tinha que levar. Coisas óbvias, como uniforme, capacete, coturno, cantil e remédios. No começo, peguei a lista e comprei tudo. De noite, eu me reuni com o pessoal da imprensa, e um deles disse que a minha lista não estava completa. Faltava dois itens, uma caixa de camisinha e uma pistola. E camisinha era algo muito íntimo, de marido e mulher. E eu pensei: ué, Camisinha para quê? Aí eu descobri. De repente, lá no Vietnã, você está numa unidade, com uma patrulha, e tem que atravessar a nado um rio, e você tinha que proteger algumas coisas que eram fundamentais. O outro item era uma pistola de bolso. E me explicaram: você é correspondente, mas está com uniforme de soldado americano. Se você for pego prisioneiro, a sua sina vai ser a de todo americano. Interrogatório, tortura e assassinato. Isso porque o vietcongue não tinha estrutura para manter prisioneiros e, além do mais, matar era bom para o moral da tropa. Então você levava a pistola de bolso para, no caso de ser pego, você a usava contra a sua própria cabeça.
F.U - E você usou o segundo item pra preservar a vida?
J.H.R – Não, nenhuma vez.
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F.U – Você já descreveu, em várias entrevistas, a explosão que vitimou o Front. Mas tenho uma curiosidade: Havia mais algum jornalistas no momento da explosão?
J.H.R - Sim, o fotógrafo japonês Kei Shimamoto. Ele ficou ao meu lado nos dias dolorosos que passei nos hospitais de guerra. Shimamoto vinha trabalhar no Brasil assim que terminasse a cobertura que fazia no Vietnã para uma publicação japonesa. Mas não deu tempo. O helicóptero em que viajava foi alvejado, durante uma ação, e explodiu no ar. Infelizmente ele virou apenas uma página no livro norte-americano Réquiem, que conta
a história dos repórteres-fotográficos que morreram no front.
F.U – Que triste. Mas, coincidência ou não, você foi correspondente de guerra e o seu genro, o jornalista Sérgio D’Avila, também. Pelo que você conversou come ele e leu na imprensa, a cobertura do conflito no Vietnã é similar à cobertura da imprensa na guerra do Iraque?
J.H.R - Há muita diferença. A Guerra do Vietnã, por circunstancias históricas, foi a guerra que a imprensa teve mais liberdade de expressão. Qualquer pessoa, de qualquer país, podia ir para o Vietnã, levando um mínimo de papel, que conseguia um credenciamento para trabalhar e morrer livremente. Era um risco muito grande. (...) Na guerra do Iraque a informação está na mão do militar, o jornalista tem que beber na mão dele. Não tem outra saída. Mudou muito a condição do correspondente. |
F.U - Em termos de risco, é o mesmo?
J.H.R - Acho que não. A guerra do Vietnã foi a guerra que matou mais jornalistas até hoje. Proporcionalmente, matou mais jornalistas que militares. E a guerra do Iraque, quando começou, morria um jornalista por dia. (...) Mas de repente, parou de morrer jornalista e não morre mais nenhum.
F.U - E por quê não morre mais jornalista?
J.H.R - A reportagem mais espetacular da guerra do Iraque que eu vi foi a captura do Sadam. Ele estava dentro de um buraco com a malinha cheia de dólar e comida já apodrecendo e ele barbudo, sujo. Tem a imagem dele e a voz dele, todo o contexto do negócio e nenhum jornalista presente. Tudo foi feito por militares. A nenhum jornalista foi permitido chegar perto. Então, que tipo de cobertura pode ser feito assim? Toda informação é filtrada antes. É informação de país totalitário, em que jornalista faz o que o governo quer.
F.U – Você citou a nação mais democrática do mundo impedindo a total liberdade de imprensa. Embora não estejamos em guerra, em todo o País pessoas têm recorrido à Justiça para processar órgãos de imprensa e jornalistas por causa de matérias com as quais se sentem ofendidos. Os mesmos órgãos dizem que isso é cerceamento à liberdade de imprensa. Qual a sua visão sobre esse tema tão espinhoso?
J.H.M - É justo e saudável que pessoas atingidas pela imprensa recorram à Justiça para reparar danos causados por injustiça, injúria, calúnia, difamação. O jornalismo brasileiro não passa por um bom momento e não é por falta de bons jornalistas e projetos de reportagem de qualidade. Acho que a causa reside na gestão das empresas, muitas delas enroladas com investimentos temerários fora de sua área. (...) O mau uso da liberdade de imprensa pode fazer muito mal à sociedade. (com ar sério) E vou mais além, não devia haver prisão especial para jornalista. Condenado num processo regular, com todo o direito de defesa, ele deve ir para a cadeia.
F.U – Mudando de assunto, me fale um pouco como se a sua transição do impresso para a TV.
J.H.R - Foi uma mudança circunstancial porque quando eu estava na Realidade chegou o Ai 5. Aquilo inviabilizou a reportagem no Brasil, seja em que veículo fosse. Não tinha mais como fazer reportagem investigativa, só dava pra fazer lero lero. Alguns jornalistas foram para a luta armada, outros foram para a imprensa alternativa e eu fui trabalhar em jornal de interior. Já que eu não poderia trabalhar com conteúdo, fui trabalhar com forma. (...) Depois, acabou parte da censura imprensa e fui convidado pela Globo para trabalhar no Globo Repórter. Fiquei um tempo lá e passei pra o Globo Rural.
F.U - No Globo Rural ainda é possível fazer grandes reportagens. Mas isso é difícil hoje em dia, não é?
J.H.R – É, porque uma grande reportagem demanda tempo e um programa semanal e não dá tempo do repórter fazer uma reportagem com a grandeza que ela deveria ter. Mas mesmo assim é um programa que cobre com fidelidade o mundo de quem vive na roça, abordando aspectos como trabalho, angústia existencial, política, culinária, dança, cultura e diversão. É um programa cuja dimensão é a alma humana. |
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F.U - Mas me lembro de várias matérias tuas no Globo Rural que eram grandes reportagens. Aquelas dos Tropeiros por exemplo, foi até lançada em DVD. Quanto tempo demorou pra fazer aquela reportagem?
J.H.R - Demorou 55 dias. Era pra eu fazer do começo ao fim, mas quando eu tava no começo dela, no Chile, Uruguai e Rio Grande do Sul, tive um problema familiar. Aí, do Sul, não pude continuar. Aí todos os repórteres do Globo Rural acabaram trabalhando nela e no final eu voltei, na última etapa.
F.U - Essa reportagem sobre os Tropeiros falava bastante da musica sertaneja. Quero finalizar a entrevista citando uma canção de Tom Jobin, em que ele diz: “Longa é a arte, tão breve é a vida”. Os inúmeros prêmios ganhos por você provam que suas reportagens são também obras artísticas. Daqui a duzentos anos você gostaria de ser lembrado por qual obra?
J.H.R - (sorrindo, demonstrando emoção). Olha, talvez eu escolhesse uma reportagem da revista Realidade sobre coronelismo no nordeste. Ela não é muito longa, mas é redondinha e tem um recado bom e uma linguagem boa. Parece que ela não perdeu a força com o tempo. Hoje ela tem 42 anos e continua atual. Quase meio século, e você lê e vê que a nervura, a pulsação da reportagem permanece. Eu escolheria esta.
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