O grupo de rock nacional Strike fala de seu novo disco, de suas composições e da relação com os fãs
Por Karen Rodrigues
A banda de rock Strike volta à cena com o novo álbum “Hiperativo”. Gravado e mixado em pouco mais de um mês, o CD traz temas diferentes e letras que, para alguns, podem gerar uma certa polêmica, como é o caso do primeiro single “A Tendência”, que faz uma sátira aos pseudo-roqueiros que seguem a moda de calças apertadas e franjas alisadas por chapinha. Formada em 2003 na cidade mineira de Juiz de Fora, a banda nasceu no underground com a única pretensão de tocar em casas noturnas locais. Com o decorrer do tempo foi impulsionada pela internet e caiu no gosto nacional. Com o lançamento do primeiro álbum, o quinteto ganhou vários prêmios como banda de rock revelação. Em entrevista exclusiva a Folha Universitária, Marcelo (voz), André e Rodrigo (guitarras), Fabio (baixo) e Cadu (bateria) contaram como foi feita a produção do disco, suas influências musicais e o sucesso que eles fazem hoje em dia.
Folha Universitária – Fale um pouco sobre o novo álbum da banda.
Marcelo – Esse disco a gente curtiu muito fazer. A gente iniciou as composições no Rio e no período que a gente ia finalizar, a gente acabou tendo a oportunidade de mudar para São Paulo pra trabalhar com a Arsenal Music e isso acabou atrasando um pouco o CD. Mas 2009 foi um ano que a gente concentrou para finalizar as composições e a gente matou as últimas músicas lá pra outubro e ficamos dois meses fazendo o processo de pré produção. Então a gente testou todas as possibilidades que podia fazer e na hora que a gente entrou no estúdio para gravar as músicas, estavam bem direcionadas (...). Foi um disco bacana, porque as músicas ficaram mais bacanas, as temáticas ficaram bem diferentes. |
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Cada música tem uma atmosfera, uma conotação diferente da outra. Então deu pra combinar bastante o temático com nuances das músicas, com os climas. Às vezes as músicas pintaram primeiro e às vezes vieram depois.
F.U. – São vocês mesmo que compõem. Como vocês se inspiram para criar as letras?
Marcelo – As letras são um trabalho diário. Todo dia eu mudo uma frase, ou acrescento alguma coisa. Música a gente não termina, você abandona, você entrega. Então a gente vai fazendo. Vou escrevendo e mostrando pra eles. Sou o letrista, algumas coisas eu fiz mais em conjunto, sempre fazendo e mostrando, pegando opiniões...
F.U. – A música de trabalho desse álbum “A Tendência” fala que ao mudar o look, aumentou a audiência sem precisar de essência. O que quis passar com essa letra?
Marcelo – É um sarro que a gente tirou da nossa juventude, da nossa galera. Quando surge o movimento de uma banda, como a gente, o NXZero, vem várias bandas atrás. E sempre a galera que toca fica esperando vir uma tendência de fora, alguma nova informação, então ninguém sabe muito bem o que é, qual é a sua personalidade e espera pra ver o que está acontecendo. Então essa música retrata isso, tira um sarro das bandas novas que surgiram. Nem todas elas a gente curte. A gente respeita todas, são amigos que estão na estrada com a gente, fazem parte do cenário com a gente. E a gente decidiu nessa música tirar um sarro, mas no “espírito esportivo”, numa maneira sarcástica e até mesmo alegre. Foi a primeira música alegre que a gente fez, uma conotação, mas comédia.
F.U. – Mas nessa letra vocês reportam a mulher como se ela aceitasse “homem sem conteúdo” só porque ele é famoso.
Marcelo – Não é que todas as mulheres vão seguir aquilo ali. Mas de certa forma, se você fizer um solo, se você fizer um som, uma parte das meninas mais novas que seguem essa tendência vai abraçar aquilo ali, entendeu. Na verdade isso não é uma coisa que engloba só os artistas. É em geral. A gente acabou citando bandas, porque elas são os ícones, entre aspas, dessa juventude. Então a gente fez um paradoxo entre isso, mas no geral o que acontece é aquilo ali, seu site tem que ser o mais “bombado” que você vai ser popular. Então tem essa busca desesperada pela fama dos realities shows, esse tipo de coisa, e a gente não curte muito essa postura. A gente pega um caminho diferente.
F.U. – Muitas pessoas conhecem vocês agora, após terem recebido alguns prêmios e pela música ter tocado na Malhação. Mas como começou a banda?
Marcelo – O Strike nasceu underground em Juiz de Fora (MG). A gente fazia show em todas as casas noturnas de Juiz de Fora e região e na época a gente não tinha pretensão de gravar. Nosso intuito era só se divertir mesmo. Então a gente fazia aqueles clássicos do rock em versões mais rápidas e modernas e a gente tocava The Police, Beatles, numa cara meio Green Day. Então isso atraiu o público mais velho e mais novo. Então ficou com um leque de show muito grande. E no meio dessa caminhada, a gente fez uma música que teve aceitação muito grande na rádio local em Juiz de Fora. “Aquela História” saiu no primeiro CD, foi single, tocou muito na rádio e a gente fez mais três músicas. Com essas quatro músicas a gente foi contratado, recebemos proposta de todas as gravadoras e na época não tinha uma banda do nosso segmento na Deck Disc e a gente optou a lançar com ela. Até que hoje a gente foi pro Rick (Bonadio), que é da Arsenal Music, mas continua lançando disco pela Deck Disc.
F.U. – Eu entrevistei o Beto Bruno, da banda Cachorro Grande, e ele disse que o eixo forte da música é Rio/SP. Por ser uma banda do Sul, eles tiveram dificuldade para conseguir espaço aqui. E pelo fato de vocês serem de Minas, vocês também tiveram dificuldade?
Marcelo – Não. Acho que Minas, bandas como Skank e o Jota Quest já tinham feito um circuito grande e até mesmo Pato Fu e tal. E o primeiro público que a gente teve fiel mesmo foi no Rio, nossa base de fãs, e como a gente tinha sido meio que abraçado pelo público carioca, a gente tinha receio de ter uma resistência para entrar em São Paulo. E foi ao contrário (...).
F.U. – Como vocês conseguiram lidar com o fato de sair do underground para se tornar uma banda conhecida?
Marcelo – O legal do Strike é que a gente não perdeu a amplitude underground. A gente costuma dizer que a gente passeia no mainstream, mas se sente underground. Então a gente continua fazendo shows, bem menos, mas faz show ainda na cena, a gente não deixa de tocar no Hangar (...). A gente faz os festivais, toca nos lances, mas não deixa de fazer show na cena.
F.U. – E fora dos palcos, como é a vida de vocês?
Marcelo – Ah, normal. A nossa rotina é totalmente atrelada à banda. Depois que a gente veio pra São Paulo, principalmente. No Rio, a gente não tinha tanto compromisso. Aqui, por estarmos lançando CD, a nossa rotina ficou muito mais assídua. A gente até consegue escapar em dia da semana, fazer algumas coisas, mas no mais é ensaio, é ver coisas do show, dar entrevista e abastecer a banda na internet também. Então a gente está sempre inventando uma coisa nova, uma promoção. Pra colocar tudo isso em prática, sem depender do escritório, é uma coisa que leva tempo. Por outro lado, o escritório também move muitas ações (...).
F.U. – O fato da música de vocês ter sido tema de Malhação ajudou a alavancar a banda? Como isso aconteceu?
Marcelo – Ajudou. Na verdade, a Globo decidiu que as aberturas iam ser rotativas e optaram por colocar uma banda nova. E a gente deu a sorte de ser a gente. A gente morava no Rio e fizemos um show no Terra Encantado, que tinha umas sete mil pessoas que cantaram essa música “Paraíso Proibido”. Aí o diretor musical ficou impressionado e como já ia mudar mesmo a abertura, entrou nossa música. Eu achei legal isso porque dá oportunidade para as bandas novas, que são bandas jovens, falarem com o público que o seriado atinge, que é o público dessas bandas.
F.U. – Como vocês conseguem destaque em meio há tantas bandas que surgiram com o mesmo estilo?
Marcelo – Aqui no Brasil, quando veio esse movimento com NXZero, a gente e o Fresno nessa mesma época, essas bandas já circulavam no underground. Então a gente não teve essa passagem pelo ascendente, já apareceu com um CD pró e lançado pela Deck Disc (...). Então, quando veio esse movimento que a mídia abraçou e começou essas bandas independentes a tocar na rádio, o público no geral colocou todas essas bandas num “balaio de emos”. Mas ninguém chegou ali e escutou como era uma banda ou outra. Quando nosso disco começou ir para as rádios, os singles vieram. Então as músicas tinham levadas meio rap como “Paraíso Proibido”, “O Jogo Virou”, que era uma outra linguagem diferente do NXZero, que eu também acho que é diferente do Fresno. Eles falam do mesmo assunto, mas tem características diferentes. Então quando a gente veio com essa cara mais pra cima, mais alegre, dentro de uma época que estavam parecendo bandas mais emotivas, o público com o tempo começou a separar a gente. E esse novo CD, apesar de ter músicas mais românticas, a banda continua sendo vista como uma banda mais rock. A gente foi disputar o prêmio na MTV como banda de rock. E foi gradual. A gente veio ganhando isso com o tempo.
F.U. – Queria que vocês me dissessem sobre os prêmios que ganharam
Marcelo – Teve dois da MTV, um do Multishow, teve um prêmio que a gente ganhou também do Serginho Groissman, teve revelação da Rede Globo... Ah, são várias coisas legais. Pra gente foi surpresa, mas ao mesmo tempo a gente não procurou ver esses prêmios como forma de cobrança, de ter que continuar ganhando toda hora. Eu acho que os prêmios servem de incentivo pra gente continuar. Não pode servir de obsessão. Tem banda que vive muito em torno disso só. Acho que se a gente não ganhar nenhum prêmio nesse ano, mas tocar nas premiações, igual a gente tocou nos dois últimos prêmios Multishow, eu acho que tocar nessas festas é muito mais legal, muito mais irado do que de repente ganhar o prêmio da noite. Isso não quer dizer nada, o mais importante é fazer o que a gente está fazendo que é estar na estrada. Nesse mês tem 14 shows, quase que dia sim, dia não. Mês que vem já vai ter mais uns 12, então isso pra gente é o primordial. Prêmio é conseqüência, mas o que a gente ama mesmo é estar na estrada tocando.
F.U. – Bom, com CD novo na praça, como vocês lidam com a questão da pirataria. Pensaram em alguma estratégia antes de lançar o álbum?
Marcelo – A melhor maneira de enfrentar a pirataria é usar um pensamento contrário dele. Então a gente procurou disponibilizar as músicas na internet, que eu acho que é uma forma de mostrar uma gratidão pelo fã que te acompanhou por tanto tempo. E já que vai ter acesso de qualquer forma, disponibiliza e quem é fã e tem interesse na banda vai lá adquirir o CD porque gosta. E quem não é fã e que quer conhecer a banda e baixar uma música, acho que é válido também. Mas se a pessoa se descobre interessada pelo trabalho, eu acho legal adquirir o CD porque ele é um trabalho que envolve o sangue de vários profissionais. Tem o que fez a capa, a gente que fez as músicas, o outro que gravou... Até chegar nesse resultado físico teve a ralação de muita gente.
F.U. – Quais são as influências musicais?
Fábio – A gente ouve bastante coisa, mas as principais influências são Blink 182, Beastie Boys e Sublime. São as três maiores influências do nosso som, que é basicamente uma mistura de rock hardcore, punk e hip hop. Essa base é comum a todos. Mas cada um escuta coisas diferentes. E nunca houve uma divergência musical. A gente acaba gostando das mesmas coisas.
F.U. – Como vocês, no auge dos 20 e poucos anos, lidam com o assédio das fãs?
André – A gente trata com o maior carinho do mundo. Tudo que a gente faz é voltado pra eles. A gente deve dar muita atenção e respeito a eles, porque são eles que movimentam nosso trabalho e shows. E a gente tem o maior carinho e tenta atender sempre todos nos shows. Sempre que a gente pode, a gente sai e vai pro meio deles, conversa... A gente não tem muita essa divisão artista/fã. Acho que se a pessoa gosta e considera seu trabalho, pra gente é o maior prazer conversar com eles. Tanto pela internet, quanto ao vivo a gente tem esse feedback imediato. Porque fã que é fã realmente comenta, mete o pau se for preciso, elogia se tiver que elogiar e a gente procura sempre manter essa proximidade.
F.U. – O público de vocês é predominantemente adolescente. Vocês pretendem fazer um trabalho voltado para um público mais adulto?
Marcelo – O nosso público renovou muito. Ainda mais depois desse CD, muitas pessoas já em faculdade, uma galera mais velha assim, tem se interessado pela banda porque sente o amadurecimento do som. Mas a gente não faz muito o som pensando no público não. É bem natural.
F.U. – Pra quem não conhece ainda o novo álbum, o que as pessoas podem esperar dele?
Marcelo – O CD tem músicas para todos os gostos. Ele está bem diversificado, os temas estão variados, cada música é uma história diferente. Ele tem muito da nossa verdade, da nossa pegada. É claro que fazer tudo que você tem vontade nas músicas é complicado. A gente sente que foi a maior “responsa” fazer esse CD pelo resultado do primeiro, que foi muito positivo, que rendeu prêmios. Então na hora de fazer o segundo bate aquela “responsa”. Mas depois que a gente disponibilizou na internet e tivemos o feedback dos fãs e das pessoas que acompanham a banda, foi o melhor possível. É aquela sensação de missão cumprida.
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