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Só no improviso
O rapper e apresentador Max B.O fala do desafio de apresentar o programa Manos e Minas

Por Renato Góes

Levar a vida no improviso pode parecer irresponsabilidade para alguns, mas para o rapper Max B.O é certeza de sucesso. Tido como um dos maiores rimadores do Brasil, ele já foi convidado a participar de discos de vários artistas, ficou conhecido do grande público como o MC Raporter do programa Brothers e agora apresenta o musical Manos e Minas da TV Cultura. Como não poderia ser diferente, a oportunidade surgiu sem aviso e Max B.O teve que fazer o que sabe melhor, improvisar. Num dia em que ele foi convidado para assistir a gravação,
o apresentador na época, o também MC Thaíde, perdeu o vôo e não chegaria a tempo.A produção lançou o desafio para ele, que não titubeou e apresentou a gravação. Sua atuação agradou a todos e hoje ele é o anfitrião dos Manos e Minas. No bate-papo a seguir, ele conta essas e outras histórias.

Folha Universitária – Antes de preparar a pauta, conversei com um amigo que é especialista em hip hop. Quando disse pra ele que ia te entrevistar, ele me disse o seguinte: “o cara é o maior rimador de rap do Brasil”. E olha que esse amigo meu não costuma elogiar qualquer artista não. Como você encara um elogio desses?
Max B.O – Pô, eu tenho que manter a credibilidade do que as pessoas falam. Quando alguém fala isso é que eu estou trabalhando com aquela filosofia do saquinho de pão, manja? Servimos bem para servir sempre. É meio assim que funciona. Eu tento cada vez mais otimizar a rima que eu faço e o leque de palavras também. É uma característica que as pessoas gostam. A curiosidade de eu achar algumas palavras que não estou no cotidiano, do rap principalmente. Algumas palavras estão no cotidiano do brasileiro, mas a língua do rap acaba não dizendo.

F.U – Essas referências vêm de onde?
Max B.O – Vêm das coisas que eu leio, que eu escuto e que não estão só ligadas ao hip hop e ao rap. Repente, embolada, samba de partido alto... São tantas riquezas que me ajudam na modalidade do improviso. Por exemplo, o repente e a literatura de cordel, os caras falam em rima sobre coisas que aconteceram há 100 anos e previsões para o próximo século. Tento fugir do que o rap fala como sua linha principal, a questão do protesto ou do movimento que está acontecendo agora. A linguagem do repente consegue transpor essas barreiras do tempo.


F.U – Essa influência do repente tem haver com as origens de sua família?
Max B.O – Tem, mas é algo meio diferenciado. Nada genético. Minha mãe é de uma cidade do interior de Pernambuco chamada Tuparetama. Muitos repentistas são de Tuparetama. Daquela região de Pernambuco em geral como o Sebastião Marinho e o Valdir Teles. Tem muita gente boa. O legal é que eu conheci o Valdir Teles num festival de rap e repente que teve no Memorial da América Latina, em São Paulo. Faz mais de dez anos. Curiosamente, algum tempo antes de conhecê-lo, ele fez um show em Tuparetama, na praça, que é uma parada bem roots. Eles fazem o show e gravam um mix tape na hora. Você pede para ele contar um causo e ele grava.
Minha mãe estava lá de visita e pediu para ele gravar uma fita com improviso sobre a saudade da minha mãe, já que eu e meu pai estávamos em São Paulo, e ele e meu irmão em Pernambuco. Os caras mantêm uma tradição que é meio o que acontece com o rap também. O cara tá fazendo um improviso e grava também. A gente não tem a tradição de gravar uma fita para a pessoa levar depois, com uma rima feita na hora, mas tem muito haver.

F.U – Falando de improviso, a oportunidade de apresentar o programa Manos e Minas surgiu num improviso. Conta essa história pra gente.
Max B.O – Pois é. Vim assistir o programa e encontra o Thaíde (apresentador anterior) e nesse dia ele perdeu o vôo. Não dava pra mandar o pessoal do público embora, nem os convidados. Como eu não tinha nada que me impedisse, eu dei essa força pro pessoal gravar o programa e aí foi.

F.U – Como foi a experiência?
Max B.O – Na hora foi uma surpresa bem chocante. Quando você vai para uma batalha de MCs, você já está sabendo que vai batalhar. Mas quando você vai passear e de repente tem uma parada pra fazer... Mas é o mesmo molejo que você tem quando bate um carro na rua. Você não sai de casa e pensa: “hoje eu vou bater o carro no lado direito ou no lado esquerdo”. O negócio foi o seguinte. Quando cheguei aqui o pessoal falou: “olha, o Thaíde dirige o carro, mas ele não veio. Você dirige o carro?”. Aí eu falei que sim, engatei a marcha e fui embora.

F.U – Você já se sente mais seguro como apresentador oficial do programa?
Max B.O – Na verdade é assim. O primeiro programa não foi um improviso. O improviso acontece em todos os programas. O primeiro foi um susto. Agora estou improvisando com mais segurança. Essa é a diferença principal. Mas uma coisa que eu tinha muita preocupação no primeiro era justamente manter a pegada do show. No show você pode mudar uma música, parar o show e fazer um improviso, pedir o RG de alguém da plateia e fazer alguma coisa que chame a atenção do público. Aqui no programa tem o timing de cada bloco. A galera tem colaborado bastante. Uma hora a gente para pra fazer uma regravação, ou trocar um instrumento. Em algumas oportunidades eu tento manter esse link. Agora eu já tenho uma segurança pra pedir uma batida pro DJ e fazer uma música enquanto a produção se ajeita. Acaba sendo um show, um entretenimento para que ninguém da plateia não fique entediado na gravação do programa.


F.U – Aqui no programa você acaba tendo acesso a vários artistas e bandas. Como é essa experiência?
Max B.O – Eu acho muito interessante. É muito louco, pois como meu trabalho musical é ligado ao rap, mas ao rap de improviso, eu acabei participando com meu Freestyle com um monte de gente diferente. Muitos dos convidados que vêem ao Manos e Minas, mesmo que não seja do rap, eu já conheço.
Mas por outro lado, a gente sabe que com o andar da carruagem, vai começar a vir grupos que eu também não conheço e que também acho interessante de trazer.Até porque o Manos e Minas não é um programa exclusivo de hip hop. Ele dispõe de todos os elementos da  cultura hip hop, mas é um programa que também mostra um comportamento e uma necessidade do jovem telespectador. Não vem só gente ligada ao hip hop. Tem gente do samba rock, veio grupo de rock... Tem que ser grupos que atendam a necessidade do que os “manos e minas” querem ouvir.

 

F.U – Sobre seus projetos musicais, o que você adianta pra gente?
Max B.O – Eu estou mixando o meu disco, depois de 15 anos de carreira, 12 profissionalmente, estou terminando meu primeiro disco chamado Ensaio. É uma homenagem ao programa Ensaio da TV Cultura. Essa história já rolava na minha cabeça muito antes do lance com o programa Manos e Minas. Estou muito ansioso. Tem música que foi escrita no ano passado, outras há oito anos, mas a batida só surgiu agora e tem muita gente especial participando do projeto

.F.U – Por que tanto tempo pra sair seu primeiro disco? Perfeccionismo?
Max B.O – Perfeccionismo não. Deve ter uma pitada até de vaidade, mas eu acho que o lance de ser independente faz com que você fique dependente de muita gente. A gente fala isso direto, estamos sempre na dependência de alguém. Esperei algumas coisas acontecerem e fiz o que deu pra fazer na época. Tinha show, ensaio, filme, turnê, tudo ao mesmo tempo. Fui escrevendo aos poucos, algumas coisas saíram em coletâneas, outras ficaram guardados para o meu disco. O lance do independente é muito dessa relação de depender das coisas conforme o tempo. Surgiu uma oportunidade de ser assistente de direção de um filme, aí guardei uma grana pra usar mais pra frente no disco. Surgiu outro projeto e tive a oportunidade de gravar as vozes do disco. Agora estou trabalhando e levantando a grana da prensagem do CD.