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Entrevista

Reflexões do primeiro mandato

O deputado estadual Fernando Capez faz uma análise de seu mandato e relembra dos tempos de promotor público

Por Renato Góes

Em meados da década de 90, o então promotor Fernando Capez ficou conhecido pelo grande público por sua luta contra a violência nos estádios. Seu confronto contra algumas das torcidas organizadas mais populares do Brasil tinha ares “quixotescos”, mas ajudou a diminuir os confrontos que muitas vezes resultavam em mortes. Pelo menos dentro dos estádios de futebol. Sua popularidade, não só nesse episódio, mas também na investigação das máfias dos transportes públicos e do lixo, o levou a mudar o rumo de sua carreira. Do Ministério Público até a Assembléia Legislativa foi um salto e tanto. Prestes a finalizar seu primeiro mandato como deputado estadual pelo PSDB, Capez recebeu a reportagem da Folha Universitária para uma conversa em seu gabinete. Dentre os assuntos abordados, um dos que chama mais atenção se refere às razões que o levaram a investir na política, profissão tão mal vista pelo cidadão comum devido as constantes denúncias de corrupção que não poupam nenhum partido.

Folha Universitária – Na biografia disponibilizada em seu site, quando era estudante o senhor se considerava um CDF. Qual a importância que o estudo teve em sua formação?
Fernando Capez – Desde o primário, meu e principalmente a minha mãe estabeleceram um processo motivacional muito interessante. Eu era motivado a obter sucesso prova por prova. Não fazia um planejamento de longo prazo. Eu iniciava o ano com o objetivo de somar o maior número de pontos em cada prova. O objetivo era a nota máxima e perder o mínimo de pontos possíveis. Hoje pode ser um critério bem discutível, mas na época funcionou como um critério motivacional. Isso fez com que eu, do primário até o último ano da faculdade, tivesse sempre notas altíssimas no boletim. Minhas notas eram 9, 9.2, no mínimo um 8.6. Era um critério que eu perseguia e se revelou eficaz na sequência da carreira. Acabei entrando na USP, um vestibular muito disputado, depois prestei concurso para o Ministério Público de São Paulo, quando passei em primeiro lugar. Foi uma preparação tão forte que foi importante paras eu dar aula mais tarde. O sucesso profissional acabou decorrendo de uma estratégia iniciada aos seis anos de idade e que não parou até hoje. Ela continua sendo perseguida por mim. O estudo compensa. Ele funciona como um passaporte para a obtenção da liberdade. Liberdade de você realizar coisas que só a realização profissional permite. Eu não me arrependo. Foi muito trabalho, muita renúncia, mas com resultado. O conselho que dou aos alunos da UNIBAN é que todo dia leiam dez páginas de um livro qualquer, em 30 dias terão lido 300 páginas. Em dois meses, eles lêem com atenção e sem sacrifício um livro de 600 páginas. Portanto, a cada ano eles conseguem estudar seis livros. O aluno que começar a fazer isso no terceiro ano, ele chega ao término do curso tendo lido 18 livros importantes. Estes 18 livros, provavelmente, o levarão a passar por um concurso público ou um exame da OAB.

F.U. – Deputado, o quanto essa sua nova função consome do seu dia a dia? Você encontra tempo de exercer a profissão de advogado?
F.C. – Olha, o saudoso deputado Ulisses Guimarães dizia que “a atividade política não aceita ser partilhada por nenhuma outra”. Ela exige dedicação integral. Dedicação exclusiva. Quando resolvi partir para a política, eu sabia que tinha que me dedicar com exclusividade. É claro que nós ainda formatamos cursos, procuramos nos manter atualizados com estudos, aulas e palestras, mas a política toma uma grande parte do meu tempo. Mas ainda assim eu não posso romper com minhas atividades acadêmicas. Continuo atualizando meus livros, escrevendo novas obras, recentemente terminei uma tese de doutorado e estou formatando inúmeros cursos. Isso tudo tem tomado muito do meu tempo.

F.U. – Quando o aguardava para a entrevista, percebi em seu gabinete algumas homenagens da Federação Paulista de Futebol (FPF) referente à sua atuação no combate à violência nos estádios. Hoje percebemos que as torcidas organizadas têm mais força e a questão da violência não foi resolvida. O que o senhor tem a comentar sobre o tema?
F.C. – Na época, o problema maior é que a violência estava dentro dos estádios. As pessoas estavam brigando e se matando dentro dos estádios. Nós tínhamos 16,4 ocorrências por jogo. Havia também muitas mortes e a situação estava fora de controle. Num raio de 200 metros ao redor dos estádios, tudo acontecia. Foram tomadas uma série de medidas e hoje essa violência saiu dos estádios e dos arredores. Mas como ainda existem torcedores violentos, muitos eventos do tipo ainda acontecem em várias regiões da cidade. O ideal seria uma mudança do público que vai aos estádios. Eu apresentei um projeto de lei aqui na Assembléia Legislativa que aguarda aprovação que manda enumerar todos os lugares do estádio e multar quem não respeitar o lugar. No momento que tivermos cada um sentando no seu lugar, respeitada a numeração e aquele que comprou o ingresso possa ser identificado pelo nome, RG e fotografia, começa a reduzir, pois vai mudar a qualidade do público que vai aos estádios. Se as famílias forem aos estádios, não há briga antes, nem durante, nem depois. Muito menos no trajeto de ida e volta. Esse é o caminho.

F.U. – Essa sua postura causou muita antipatia por sua pessoa?
F.C. – Toda ação de força é polêmica. Toda vez que se usa força, você age com autoridade. E toda vez que se age com autoridade cria-se uma imagem de antipatia. Mas felizmente o trabalho foi bem sucedido. Ele tem suas limitações, é verdade, mas qualquer trabalho que tenha o propósito de erradicar a violência, ele nunca será atingido na sua inteireza. Mas ele produziu resultados e hoje, sete anos depois, há outro promotor, o dr. Paulo Castilho, encarregado de acompanhar essa questão.

F.U. – O senhor tem uma ligação forte com os temas cidadania e direito do consumidor. São temas sempre presentes na sua pauta?
F.C. – A competência é muito forte nessa área do consumidor. Tenho um projeto que virou lei. Quando você receber em casa a conta de água, luz ou telefone, e estiver quite com as prestações, você recebe uma quitação, ou seja, um recibo avisando que nada deve. Por quê? Aí você pega os cinco anos anteriores que você guarda com medo de que um dia seja cobrado e joga fora. É uma lei que infelizmente não está sendo cumprida.

F.U. – Como é o dia a dia aqui na Assembléia Legislativa? O senhor tem inúmeros projetos que nem sempre levados em discussão.
F.C. – É o seguinte. A Assembléia vota muitos projetos, mas do executivo. Ela vota poucos projetos de deputados. Essa é minha única queixa. Deveria ser votados mais projetos do legislativo. É verdade que teve a Lei Antifumo e outros projetos, mas tem muita coisa legal que fica de fora. Não há prioridade. Deveria ser afinal estamos aqui para isso. Nossa função é legislar.

F.U. – A oposição costuma dizer que a situação, da qual o senhor faz parte, costuma blindar o governo estadual, como se fosse uma tropa de choque do governador José Serra. O que o senhor comenta sobre essa afirmação?
F.C. – De fato é normal que o executivo tenha uma base aliada. E que essa base aliada seja fiel ao executivo. Afinal de contas, eu faço parte do partido do governo. Se eu sou do partido é porque tenho afinidade com a maneira que o governador José Serra governa. Nós procuramos dar ao nosso governo condições de administrar bem o Estado. Essa é nossa principal função. Agora, esse fato não significa que tudo você deva concordar. É importante que a Assembléia tenha opinião própria. Que ela discorde e apresente soluções, como já foi feito por aqui várias vezes. (...) É importante ser aliado sem ser alienado.

F.U. – O senhor sente falta da promotoria?
F.C. – Olha, foi uma fase. Eu penso que, depois de 20 anos no Ministério Público, acho que dei a minha contribuição. Pretendo seguir a carreira política. Ela te dá algumas satisfações. Tenho feito uma política do bem, um trabalho junto comas igrejas católica e evangélica, tenho ajudado a Polícia a ter melhores condições de trabalho. A política, quando bem feita, te dá uma satisfação muito grande. A satisfação do dever cumprido, de poder fazer o bem e ajudar as pessoas. Uma função bem distinta de um promotor do Ministério Público.

F.U. – Numa época cheia de escândalos na política brasileira, o que o levou a entrar nesse meio muito contestado pela opinião pública e sociedade em geral?
F.C. – No meu caso eu já tinha emprego, um cargo e uma independência financeira pelo fato de dar aulas e escrever livros etc. Eu vim para a política com o objetivo de cumprir uma missão. Havia alguma coisa que me dizia que assim o fizesse. Quando ia aos restaurantes, eu sempre escolhia a sessão de fumantes. Nem eu nem minha mulher fumam. Um dia um garçom me perguntou porque eu fazia isso. Aí eu respondi: “Por que é um fumante a menos no restaurante”. Dessa forma, toda pessoa que tem boa intenção ao entrar na política é um bem intencionado a mais, e um mal intencionado a menos. Se vai conseguir fazer alguma coisa ou não, vai da dificuldade do sistema. Mas é importante que a política seja preenchida e exercida por pessoas que não vão para fazer negócios, mas sim para cumprir uma missão. Não dá para servir a dois senhores. Ou é a sociedade ou o dinheiro. Tem que escolher.