Opiniões sobre a mentira
Confira as entrevistas com o cientista, doutor Rui Carreteiro, e o teólogo Manoel Andrade
Folha Universitária – O hábito de mentir pode ser definido como um problema de ordem psíquica ou uma questão de ordem moral?
Rui Carreteiro – A mentira banal por si só será algo de ordem moral. No entanto, quando se torna demasiado freqüente, constituindo um vício que aprisiona o paciente, entramos na esfera da patologia e ai falaríamos num problema de ordem psíquica, que carece de intervenção seja ela no âmbito da psicoterapia ou mesmo da medicação.
F.U. – Mentir é natural no ser humano?
R.C. – Mentir é efetivamente normal, mas para aqueles que se confortam com este fato, eu relembraria que a sinceridade também é uma característica definidora do ser Humano.
F.U. – Quando mentimos o nosso corpo reage?
R.C. – Existem efetivamente respostas fisiológicas ou mesmo comportamentais que acompanham a mentira. Elas são de resto a base dos polígrafos (detectores de mentiras). No entanto, estas respostas estão longe de ser taxativas ou universais, podendo mesmo ser suprimidas ou mesmo diminuídas com algum treino, o que naturalmente coloca em causa todos estes métodos e comprova que não existe nenhuma regra ou indicador universal para apurar quando o ser humano está ou não a mentir.
F.U. – Além das conseqüências naturais da descoberta de uma mentira, sofremos algum dano quando mentimos?
R.C. – Na realidade, algumas experiências têm revelado que o cérebro do mentiroso funciona de forma diferente: as áreas cerebrais frontais (responsáveis pelo tratamento da informação relevante) parecem estar mais desenvolvidas e haver mais substância branca (neurônios responsáveis pelo tratamento e transmissão mais célere da informação). Para além destas conseqüências neurobiológicas, é sempre bom relembrar que a saúde mental só é compatível com a verdade, o que significa que sempre que nos tentamos enganar a nós próprios, negando a realidade, nos aproximamos mais do terreno da psicopatologia.
F.U. – A Bíblia classifica a mentira como uma descendente direta de Satanás (João 8:44). Como a ciência classifica essa prática?
R.C. – Talvez a Bíblia tenha a sua razão. Durante toda a história da humanidade a mentira causou muitos sofrimentos e fez derramar muitas lágrimas, sobretudo quando projetada sob a forma de calúnia. A mentira vulgar será uma característica vã. A mentira patológica recebe freqüentemente os termos de mitomania ou pseudolalia e o manual estatístico de diagnóstico das perturbações mentais insere-a nos distúrbios, perturbações de personalidade, geralmente associada aos estados limite.
F.U. – Me parece que na filosofia há uma divisão nessa questão, enquanto Platão concordava que em alguns momentos mentir é saudável Aristóteles, por sua vez, discordava totalmente de que a mentira pode ter algo de bom. Essa divisão se dá também na ciência?
R.C. – Como em tudo, há quem veja só a cor branca, outros só a cor preta e na realidade há muita coisa cinzenta. Também na discussão científica existe quem considere a mentira banal e até indispensável, enquanto outros a considera completamente perniciosa. Eu diria que dentro de limites pode ser admitida, relembrando, todavia que muitas vezes podemos dizer a verdade de uma forma muito mais sensível e harmoniosa, que dispensa muitas vezes os efeitos que muitos defendem como positivos ou de integração social, trazidos pela mentira.
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Folha Universitária – De acordo com a Bíblia, qual a origem da mentira em nosso mundo, ou mesmo no universo?
Manoel Andrade – A mentira originou-se com um anjo chamado Lúcifer, que após sua rebelião contra Deus passou a ser conhecido por Diabo e Satanás. Jesus Cristo afirmou que o Diabo é o “pai da mentira e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade”. Evangelho de João 8:44. Deus havia dito a Adão e Eva para não comerem do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, porque no “dia que dela comeres, certamente morrerás.” Quando Satanás, enganou Eva, afirmou: “É certo que não morrereis.”
F.U. – Há alguma definição para mentira na Teologia Cristã?
M.A. – Mentira é o oposto da verdade de Deus. Mentira é o que não corresponde com a realidade. É impossível que Deus minta. Deus ordena que não mintamos. Deus punirá os mentirosos severamente. A Bíblia afirma que “mentira alguma jamais procede da verdade.”
F.U. – Para o filósofo Platão a mentira pode ser uma coisa boa quando proferida para ajudar outra pessoa ou no caso de salvar a vida de alguém, etc... No cristianismo a mentira é aceitável em alguma circunstância?
M.A. – Para muitos a mentira é inofensiva e até mesmo necessária. No entanto, toda mentira traz consequências. Ela foi à causa da queda e sofrimentos do homem e de muitas lágrimas. Em nenhum caso a Bíblia dá aprovação divina à mentira. Ela é perniciosa e deve ser desaprovada.
F.U. – A Bíblia ensina como identificar uma mentira? Ensina como escapar dela?
M.A. – A Bíblia não está preocupada em explicar como identificar uma mentira e sim como evitá-la. Quando o ser humano passa por um novo nascimento efetuado pelo Espírito Santo surge uma nova vida. Isso ocorre quando o homem aceita as boas novas do evangelho de Jesus Cristo. Ele disse: “ Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim. Se alguém está em Cristo, é nova criatura, logo não é um mentiroso. |