Entrevista
Admirador do vinho e da boa música
O cantor Ed Motta fala de sua carreira, inspirações, novas composições com a esposa e de sua imensa coleção de vinis
Por Karen Rodrigues
Piquenique é o décimo álbum do cantor, compositor e multi-instrumentista Ed Motta. As canções que compõem o novo disco foram escritas a quatro mãos, de forma bem descontraída e regada a muito vinho, marcando assim a nova parceria entre o cantor e sua esposa Edna Lopes. Em entrevista exclusiva a Folha Universitária, o simpático cantor fala sobre os 20 anos de carreira, sua paixão por vinho e disco de vinil e como foi preparado o novo álbum.

Folha Universitária – Neste novo álbum você contou com a parceria da sua mulher para escrever as letras. Como foi essa “nova” parceria?
Ed Motta – Eu e a Edna já estamos casados há 19 anos e a gente nunca tinha feito isso. Ela é minha colaboradora sempre na parte visual dos meus discos e nos shows, nos cenários, enfim, toda a parte visual está na mão dela desde 92, no meu terceiro disco. Ela faz quadrinhos e tem esse envolvimento não só visual, então tem um envolvimento com as palavras muito maior do que eu. Então a gente começou a fazer a letra de brincadeira. Eu sempre tenho uma fita de demonstração pra mostrar pros letristas, e nesse caso eu já tinha essa fita e ia mostrar. Estava mostrando pra ela não só uma música como tudo, como sempre eu faço. Ela sempre escuta antes de todo mundo. Aí eu falei: ‘ah, vamos fazer alguma coisa’. A gente estava jantando, tomando um vinho. Depois da enésima garrafa (risos) aí a gente disse: ‘vamos fazer alguma, vamos ver como fica’ e fizemos a letra da “Turma da Pilantragem”, que já começou com “Essa pilantragem que eu quero...”, lembrando coisa lá do Carlos Imperial, aquele erotismo inocente dos anos 60. E aí começamos a fazer as outras. E elas foram feitas assim, uma atrás da outra, até com certa agilidade. Fluiu bastante, assim.
F.U. – Quanto tempo de trabalho neste novo álbum?
E.M. – O trabalho total levou um seis meses. Gravação e mixagem, principalmente mixagem que eu demoro muito, principalmente quando o disco é mais dentro dessa linguagem pop, ele demora mais na finalização. O disco já “Disco”, demora mais na pré-produção. A cultura das canções num disco já “Disco” são tecnicamente mais difíceis, mas a forma de gravar é mais simples. Mixar é tudo mais simples. Até porque tem que ser com pouca coisa, como se fosse um churrasco assim, bota só sal, se por mais coisa estraga. Já o pop é meio comida francesa assim, precisa de horas, o molho tal, frigideira com não sei o que, a elaboração de pós-produção é muito grande. A outra tem elaboração de pré-produção. Como a música clássica, que é a música erudita. Erudito tudo pode ser, eu nunca falo erudito, porque eu acho esse termo horrível (risos). É muito pretensioso, porque pra mim Tom Jobim é música erudita.
F.U – Piquenique também teve a parceria da Rita Lee. O que esta parceria acrescentou no novo álbum?
E.M. – Já é a terceira parceria com a Rita Lee. É a terceira vez que ela faz uma letra, uma música minha. Sempre pra mim é emocionante, porque sou super fã dela. E as nossas letras, da Edna comigo, eu acho que são bastante influenciadas pela Rita Lee. O jeito de escrever é a nossa inspiração mor. O nosso objetivo, quando a gente ficar grande é fazer letra igual a Rita Lee (risos).
F.U. – Neste disco tem várias faixas bem legais, mas tem uma em particular que eu considero a cara do povo brasileiro que é a “Mensalidade”. Começo do ano é o momento dessa música virar hit, porque é só carnê que aparece (risos). Como surgiu a letra desta música?
E.M. – É, começo do ano tem que pagar a festança em cinco vezes, seis, em doze (risos). É maravilhoso, é totalmente isso aí, bicho. A cor da cultura do parcelado. A letra surgiu de brincadeira é tudo uma grande piada. Fazer rindo, sabe? É uma coisa que tem humor o tempo inteiro. Em algumas têm o tom de humor mesmo, tom de sarcasmo que não é cínico é um humor bem inocente.
F.U. – E as outras composições aonde você busca inspiração para as letras?
E.M. – Minhas composições são frutos de tudo aquilo que eu escuto. Fico ouvindo um monte de coisa diferente, pelo fato de ser colecionador de disco. Ouço tanta coisa diferente o tempo todo sem parar, desde a hora que eu acordo até a hora que eu vou dormir estou ouvindo alguma coisa. Algum LP, vinil, não sei o que. Então isso tem um reflexo forte na minha música.
F.U. – Já são 20 anos de carreira. Como é atravessar gerações e manter o sucesso hoje em dia. Tem algum segredo pra isso?
E.M. - Putz, o segredo é ter garras afiadas para conseguir matar esse leão por dia aí (risos). É difícil, pô. É heróico, né? E coitado de mim, eu sou um jovem. Imagina todos os caras lendários da MPB que estão aí, meu Deus é tempo.
F.U. – Além de ter caído no gosto dos brasileiros, você também faz muito sucesso fora do Brasil também, como o Japão, Europa, EUA. Como é seu público no exterior?
E.M. – Na Europa em sempre faço turnês lá. De dois em dois anos tem sempre uma turnê na Europa. E Japão, EUA, Austrália eu já rodei tudo aí. Fui lançado no mercado europeu com dois discos, na Inglaterra. E são discos diferentes. São discos instrumentais vocais, que eu uso a minha voz como instrumento e são discos bem radicais. Então as pessoas me conhecem mais por esse lado lá. Toco em clube de jazz, em lugares pequenos. E aqui toco para um público maior, uma audiência maior, mais pop, mais popular, lá mais uma audiência mais especializada. Se eu tivesse que tocar numa audiência popular lá, eu teria que fazer a mesma coisa. O mundo é tudo igual, né?
F.U. – Você é um fã do vinil e tem coleções raras. Qual é a sua relação com as novas tecnologias. Você é mais digital ou continua analógico?
E.M. – Eu pra ouvir música, se eu estou em casa nunca escuto nem MP3, nem CD. Mas em viagem, eu viajo com três Ipod e estou sempre ouvindo os Ipods com muita coisa do vinil que eu passo pro digital. Tem coisa que eu passo, tem vinil que eu acho na internet pra baixar, faço CD. No Ipod acontece de tudo, né? (risos). Agora pra escutar em casa, o ritual é sempre o vinil. Sempre.
F.U. – Dentro da sua coleção de obras raras, tem alguma que te chama mais atenção?
E.M. – Posso dizer que é o do Moacir Santos, o “Coisas” de 1965, que é um dos grandes discos da música brasileira.
F.U. – Suas influências musicais vêm de artistas dos anos 50, 60 e 70. Atualmente, o que você ouve da música brasileira?
E.M. – Eu não escuto nada. Não escuto nem da música brasileira e nem internacional. Como tem muita coisa, na década de 80 a quantidade de informação que chegava sobre um determinado período que eu gostasse era muito menor. Então eu me via obrigado a me atualizar ouvindo as bandas da minha época que eram dos anos 80, porque não chegava informação. Não era como hoje com essa coisa de internet que é muito rápido. A internet deixou as pessoas mais especializadas dentro daquilo que elas querem. Você quer ler sobre a medicina de coelhos, pro resto da sua vida você vai aprender sobre isso. Então eu vivo ali naquele período entre a década de 40 e o início dos anos 80. Essa é a minha área de interesse. É o que toca no meu programa de rádio (Empoeirado na Rádio Eldorado). Enfim, é interesse estético, visual, musical, então não dá nem tempo de sacar o que está rolando hoje não.
F.U. – Não tem nenhum nome, nenhum estilo que te chama à atenção hoje?
E.M. – Não, não. Os discos eram feitos com outro propósito. Nos anos 70 todo mundo queria soar um diferente do outro. As pessoas queriam ter discursos diferentes, pensar de forma diferente. Nos anos 70 tinha no mercado internacional tinha gente de soul, tinha banda de blues, tinha banda de funk. Hoje está tudo muito parecido. O discurso é muito padronizado. Acho tudo muito igual, os filmes, os carros, as roupas, os discos, o que as pessoas pensam (risos). É tudo muito igual, é tudo muito parecido. Todo mundo justamente quer soar e ser parecido com o outro. É o contrário, é a era que não defende a individualidade.
F.U. – Você está com CD novo na praça. Houve alguma estratégia no lançamento desse álbum, principalmente por causa da pirataria?
E.M. – Eu não sei. A minha parte é fazer a música. Essa parte é mais a gravadora. Eu sou provedor de arte. A solução de como vender isso nunca foi do artista e agora está tendo que ser em alguns momentos. O artista tem que pensar em tudo, virar empresário, por isso que a música está do jeito que ela está, né? Isso é fogo. Isso é o tempo de hoje, o que está rolando.
F.U. – Entre as suas paixões está o vinho. Essa paixão despertou na época que você morava nos EUA. E pra você essa paixão é tão grande como a música? O que muda?
E.M. - Eu tinha uma coluna na Folha de S. Paulo em 98 e depois tive uma coluna na Veja Online sobre vinhos. São coisas diferentes, a música é um negócio muito fora de tudo. Pra mim a música é vital. É como respirar, ela faz parte da minha existência. Eu e a minha música que gostamos de beber vinho na verdade (risos).
F.U. – No início da sua carreira, uma coisa que você menciona são as comparações com seu tio (Tim Maia). Isso te incomodou, ou te ajudou?
E.M. – Apesar de nunca ter tido um convívio com o Tim Maia, apesar de ser meu tio, eu não vivi com ele. Hoje eu entendo o porquê. A vida do artista é viajar pra lá e pra cá e não tem tempo de ir naquele churrasco da família, num domingo. Em que a maioria dos tios vai estar sempre presente. Então nunca teve esse lance aí. Pra mim era uma coisa curiosa, porque como o meu primeiro disco musicalmente tinha a inflexão do soul, do funk e ele é o cara que lançou isso no Brasil, claro que isso me ajudou, é claro. Claro que isso ajudou na curiosidade que as pessoas tinham a cerca de mim.
F.U. – E sobre “Piquenique”, o que o público pode esperar deste álbum?
E.M. – É um álbum que quem acompanha a minha carreira vai ter um reencontro com algo que as pessoas estavam esperando há muito tempo. Ficaram quase que dez anos e eu fazendo esse outro tipo de coisa. Nesses 20 anos de carreira, a carreira se dividiu entre 10 anos pop e 10 anos experimentais. |